"ACORDA BRASILEIROS"
TAV projeto mais destruidor do capitalismo
[Portugal] Crônica da Jornada Contra o TGV
Realizou-se no dia 18 de dezembro, no Largo da Severa, Mouraria, em Lisboa, a “Jornada Contra o TGV”, uma sessão de debate e informação sobre "O projeto do Trem de Alta Velocidade em Portugal e a necessidade de o parar" e "Experiências de luta na Itália e no País Basco contra o TGV".
Cerca de 60 pessoas, de diversas partes do país animaram uma tarde de debate e informação em que as lutas contra o TGV no Vale de Susa, região de Turim, na Itália, e no País Basco, foram relatadas na primeira pessoa, através de companheiros e companheiras intervenientes nessas lutas.
Em particular, a luta contra o TGV, no País Basco, intimamente ligada às populações locais, as dificuldades da luta libertária, decorrentes da repressão brutal do Estado, potenciada pela atuação da ETA, foram comparadas com a luta no Vale de Susa, uma luta que dura já 20 anos, impedindo, de fato, a construção do TGV, pois as obras têm sido impedidas, há mais de cinco anos. Uma luta exemplar, já que as populações têm se organizado de forma libertária, informal, sem controle de nenhuma espécie, aí residindo a sua força e eficácia, segundo os companheiros italianos.
Outro aspecto interessante na riqueza desta luta é como ela transbordou o Vale de Susa e como se interligou numa rede de apoio-mútuo com outras lutas em toda a Itália, seja contra a energia nuclear, seja no âmbito antimilitarista ou contra incineradoras (lixões) e outras mais.
A luta expande-se assim como o TGV. Atualmente uma luta inicia-se em Stuttgart, na Alemanha. E o projeto do TGV atravessou oceanos e promete instalar-se no Brasil, ligando o Rio de Janeiro a São Paulo e Campinas (http://www.tavbrasil.gov.br/). Quando este projeto bilionário estiver implantado, o Brasil será o único país da América do Sul a ter um trem de alta velocidade.
A importância da luta contra o TGV em Portugal, cujas obras vão ser brevemente iniciadas, um dos projetos mais destruidores que o capitalismo concebeu para a região portuguesa, foi por demais salientada.
Foi referido, também, o impacto que este projeto desenvolvimentista provocará no meio ambiente e nas vidas de todos, a atualização do sistema de miséria, o controle social, a transformação do território, a militarização das ruas e a urbanização desenfreada nas cidades, vilas e aldeias por onde passa a Alta Velocidade.
Como balanço, ficou a consciência de que lutar contra o TGV é apenas o início de uma luta mais ampla contra o desenvolvimento do Capital e muitos outros dos seus projetos.
Emília Cerqueira
[A seguir folheto distribuído antes e durante a Jornada Contra o TGV.]
O TGV não vai passar por aqui porque nós não vamos deixar!
RAVE: em alta velocidade a destruir tudo por onde passa
O projeto do trem de alta velocidade (TGV ou TAV; em Portugal foi nomeado RAVE – Rede de Alta Velocidade) vai começar a ser construído entre Lisboa e Caia, na fronteira com Espanha, para a partir daí continuar até Madri. A sua construção é uma imposição, independentemente das pessoas afetadas, da sua vontade e do seu bem-estar. As expropriações por parte do Estado já começaram.
A discussão sobre este projeto tem sido, até hoje, meramente política: partidos e organizações sentam-se à mesa de negociações e regateiam onde, quando e como será este projeto levado em frente. O seu interesse não está em parar este projeto de morte, mas em decidir qual será a forma mais vantajosa de construí-lo, e em que momento será economicamente mais aceitável. Mesmo aqueles que estão sinceramente contra a construção do TGV, a nosso ver até hoje não apresentaram nenhuma forma concreta de resistência e ataque a este projeto que o possa efetivamente parar.
Nesta discussão política, todos os fatores entram em consideração, exceto um: a nossa vontade de viver e circular livremente e de destruir os planos que sufocam a nossa vida e os lugares onde vivemos.
É por isto que pensamos que a resistência ao TGV deve ser tentada através de uma luta anti-política, uma luta que ponha em prática os nossos desejos, necessidades e vontades reais, e que verdadeiramente consiga pôr um travão no avanço da morte. Esta luta, além de recusar a negociação com aqueles que nos tentam impor vidas que não queremos, deve ser uma luta de ataque e não de simples resistência, ou seja, deve tomar a iniciativa e agir da maneira que cada um achar melhor, tendo como alvo as obras do TGV, estações e acessos, assim como as empresas e instituições envolvidas na sua construção/exploração/financiamento.
Porque é que o TGV é um projeto de morte?
Porque a sua construção vai destruir centenas e centenas de quilômetros de floresta, montanha, planície e terrenos de cultivo, assim como milhares de casas, palheiros, fontes e cursos de água.
Porque, como a linha inclui barreiras em todo o seu comprimento, vai separar fisicamente pessoas que fiquem a viver em lados diferentes da linha e pessoas dos seus locais de trabalho, passeio, namoro, etc...
Também os animais vão deixar de poder cruzar os campos, dado que vão deparar-se com uma barreira intransponível à sua frente.
Porque vai causar um barulho ensurdecedor de cada vez que um trem passar, com todos os riscos para a saúde psicológica que isso acarreta.
Porque as crianças e pessoas com um espírito rebelde que desejem atravessar o campo onde sempre o fizeram vão ascender as barreiras de proteção, recusando na prática a imposição de barreiras no seu caminho, e por isso a ameaça que a RAVE lhes coloca é a de atropelamento ou eletrocussão.
Porque querem enterrar para sempre a beleza daquilo que é a viagem, daquilo que se vê, ouve e sente no espaço e tempo que percorremos entre um local e o outro.
Porque a sua existência serve unicamente os interesses das máfias construtoras, políticas, dos banqueiros, dos grandes donos de terras e dos empreendimentos turísticos. E nós estamos fora e contra todas elas. Porque quem o vai utilizar majoritariamente são as elites políticas, econômicas, patronais e turísticas da Europa: e para dizer a verdade estamos fartos de elites e das suas ordens, e dá-nos asco a idéia de vê-los atravessarem-se no nosso campo de visão.
Porque a visão de um monstro de metal a rasgar os campos ofende os nossos sentimentos mais íntimos de amor pela terra, pelo espaço e de uns pelos outros. É como ver a destruição sobre linhas de trem a romper em alta velocidade as nossas memórias e os nossos sonhos.
Quem está contra o TGV?
• Os partidos da direita, que nos parece serem contra o TGV apenas porque estão na oposição e é isso que a oposição faz: opor-se ao governo. De fato, as questões que têm levantado são meramente acerca da pertinência deste projeto no dia de hoje, devido à falta de dinheiro. Ou seja, não são verdadeiramente contra o TGV, o seu interesse é simplesmente o de serem eleitos e com isso decidirem eles quando é que o vão construir e quais as máfias que preferem beneficiar.
• Os ecologistas, que se pautam pela indecisão, sendo que há os contra o TGV porque vai destruir muitos hectares de floresta, ao mesmo tempo que há os a favor do TGV porque supostamente é um meio de transporte não poluente. Aos primeiros reconhecemos a sua sinceridade, mas lamentamos as formas de resistência que até hoje foram propostas e que normalmente propõem, e que têm a haver com manifestações inócuas que nada atacam, ações simbólicas que infelizmente fazem rir os nojentos líderes que nos querem impor determinados projetos, e abaixo-assinados que simplesmente procuram o reconhecimento e a negociação com aqueles que nos estão a lixar. Aos segundos, além de querermos perguntar como é possível uma obra desta envergadura e materiais envolvidos serem considerados “não poluentes”, há uma questão para nós mais fundamental: ao enaltecerem as razões ambientais esquecem toda a questão social e de classe, ou seja, o fato de um projeto deste tipo destruir completamente relações e formas de vida e despedaçar ainda mais cada indivíduo por ele atingido, e que aparentemente nada pode fazer face a tamanha monstruosidade.
• Os pacifistas e humanistas, que até podem ser contra a construção do TGV, mas ao serem pela não-violência são também contra a idéia de ataque, e dessa forma deixam descansadas todas as empresas e instituições interessadas na construção do TGV.
• Por fim, há todos os outros onde nos incluímos que, sem interesses políticos nem ideologias que bloqueiem a sua ação, têm todas as razões para tentar de fato travar este projeto de morte, e um vasto leque de ferramentas ao seu dispor que poderão ser experimentadas.
Uma possibilidade
Através da auto-organização e da ação direta de todos os que verdadeiramente desejam travar a imposição da morte poderemos fazer descarrilar este projeto.
Nesta luta que recusa a lógica do progresso, do patriotismo e do parlamentarismo, estaremos lado a lado com aqueles que agirem de forma honesta, decidida e concreta contra este projeto que nos quer roubar mais um pedaço das nossas vidas. E recusaremos qualquer diálogo com quem o pretende levar avante; não há diálogo com quem tenta impor a destruição das nossas vidas.
Juntos podemos destruir a RAVE!


A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) anunciou nesta quinta-feira que o leilão do trem de alta velocidade (TAV), denominado trem-bala, que fará ligação entre as cidades de Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro, foi adiado para o dia 29 de julho. As propostas devem ser apresentadas até o dia 11 de julho. 















